Artigo: Estudar Arquitetura não é como o Uber ou o Netflix

Artigo: Estudar Arquitetura não é como o Uber ou o Netflix 04/05/2017

 

Por Francisco Valdivia

 

Tenho dado aulas nos últimos dez anos e tenho visto com espanto como os estudantes universitários de arquitetura estão cada vez mais convencidos de que a Faculdade de Arquitetura é como o Uber ou o Netflix.

Acostumaram-se a escolher, rejeitar e evadir, apenas deslizando um dedo para o lado. Se você não gostam do escritório, podem deslizar algo mágico e passar ao seguinte. Como quando pedem um Uber e cancelam a viagem se não gostam do carro ou do rosto de quem irá recebê-los na porta. Creem que se os professores não os qualificam como esperam, eles podem dar uma ou duas estrelas na avaliação e a universidade lhes devolverá sua mensalidade. Nada do encontro de ideias e aprendizagem progressiva que significa a universidade. Pagam (ou seus pais) por um serviço, como uma assinatura do Netflix ou uma casa no Airbnb.

Alguns alunos me escrevem pedindo aulas extras, porque não puderam estar em sala ou porque estavam viajando. Não, nenhum deles se preocupa em mentir que estavam doentes. Simplesmente, não querem aceitar as consequências de suas decisões. Que nada é tão terrível pois, de alguma forma, sempre pode-se recuperar. Como se a Universidade fosse um serviço 24 horas, pelo qual (seus pais ou bolsas) estão pagando. É uma geração que não entendeu que deve ter responsabilidade e, pior, não tem o sentido da escassez. Tudo pode ser visto mais tarde. Tudo está respaldado em alguma parte. Está na internet ou em algum local.
Não, a universidade não é assim. Se faltou ou não entregou o projeto, deve acatar as consequências. Os aplicativos e redes sociais potencializaram uma geração que não dá valor ao transcendental ou ao efêmero. Não, não poderá ter a aula quando quiser. Nem repetir a interessante discussão entre estudantes e professores após a última entrega do ateliê de projeto. Não, não há um vídeo do Playground que te resuma isso em 30 segundos.

Na arquitetura é sabido que a tolerância à frustração, além do cultivo da paciência, a experimentação constante e a capacidade de argumentar são chaves para avançar na carreira. Por sorte, não posso falar por todos, mas ao menos um terço de meus alunos não vê sentido nisso tudo. A que exatamente? A isso de entregar propostas onde, segundo eles, “sempre irão mal”. Para que tentar se vou falhar? Melhor fugir. Acreditam que seus projetos sempre são bons e que seus professores servem para perder seu tempo.

Uma das principais rupturas entre o colégio e a universidade é que os jovens saem de uma cultura onde se premia o esforço sobre todos os resultados. “Por que fui mal se me esforcei tanto?” é uma queixa recorrente. A maioria entende durante o primeiro ano da universidade, mas outros querem uma estrela por ter chegado em último na corrida de 100 metros livres, em vez de esforçarem-se para chegar em primeiro ou, pelo menos, em um bom tempo… seguindo a analogia.

Sempre explico dessa forma: o esforço nem sempre produz bons resultados, mas os melhores resultados são produto de um grande esforço. Se buscam recompensas instantâneas, então nunca entenderão. E isso não só lhes pesará na próxima entrega, mas também no seu primeiro emprego (estágio), em seu trabalho final e no seu primeiro trabalho

Como eles têm tudo ao alcance dos dedos, então não toleram a rejeição. As redes sociais reforçam (ou melhor, detectaram) essa personalidade e se esforçam em entregar recompensas imediatas para o mínimo de esforço, para que você nunca abandone os seus tentáculos e ninguém saia frustrado. Mas a universidade e o mercado de trabalho não são assim. Eles têm lógicas distintas. Eles não entendem por que você se esforçou por cinco, seis ou sete anos, se não enxergam o resultado de forma imediata.

É sabido que os millenials formam parte de uma geração com medo de comprometimentos. Em certa medida, por sua rejeição às cargas exigidas socialmente das pessoas e, por outro lado, pelo medo de tomar decisões. É um fato que têm pânico de tomar decisões (e portanto, responsabilidades) e isso é visto em seus projetos, que são reflexo de uma certa indolência e consenso inútil. “Você me disse para fazer assim”, é o mantra de alguns.

É perigoso que alguns estudantes vejam a universidade como um serviço que lhes serve, ao seu gosto, e que seus professores e qualificações devem ser cômodas e ajustadas a suas expectativas. Com sensações falsas de progresso, assim como um Candy Crush e seu desenvolvimento assegurado por sua capacidade comprar munições e armamentos em jogos de internet.

Não só a universidade e os acadêmicos devem se adaptar às metodologias de aprendizagem em um mundo super-povoado de informações (não necessariamente conhecimento), mas também os estudantes devem entender que a arquitetura, uma profissão que implica uma alta resistência ao fracasso, não é um aplicativo onde os obstáculos podem ser eliminados deslocando a tela, pagando a versão pro ou assistindo a uma publicidade de dez segundos. E é bom que entendam isso o quanto antes.

Fonte: Archdaily Brasil